quinta-feira, 2 de junho de 2011

O que quer uma mulher






Um bebê nasce. O médico anuncia: é uma menina! A mãe da criança, 
então, se põe a sonhar com o dia em que a sua princesinha terá um 
namorado de olhos verdes e casará com ele, vivendo feliz para sempre. 
A garotinha ainda nem mamou e já está condenada a dilacerar corações. 
Laçarotes, babados, contos de fadas: toda mulher carrega a síndrome de 
Walt Disney. 
Até as mais modernas e cosmopolitas têm o sonho secreto de encontrar 
um príncipe encantado. Como não existe um Antonio Banderas para todas, 
nos conformamos com analistas de sistemas, gerentes de marketing, 
engenheiros mecânicos. Ou mecânicos de oficina mesmo, a situação não 
anda fácil. Serão eles desprezíveis? Que nada. São gentis, nos ajudam 
com as crianças, dão um duro danado no trabalho e têm o maior prazer 
em nos levar para jantar. São príncipes à sua maneira, e nós, 
cinderelas improvisadas, dizemos sim! sim! sim! diante do altar; mas, 
lá no fundo, a carência existencial herdada no berço jamais será 
preenchida. 
Queremos ser resgatadas da torre do castelo. Queremos que o nosso 
pretendente enfrente dragões, bruxas, lobos selvagens. Queremos que 
ele sofra, que vare a noite atrás de nós, que faça tudo o que o José 
Mayer, o Marcelo Novaes e o Rodrigo Santoro fazem nas novelas. 
Queremos ouvir "eu te amo" só no último capítulo, de preferência num 
saguão de aeroporto, quando ele chegará a tempo de nos impedir de 
embarcar. 
O amor na vida real, no entanto, é bem menos arrebatador. "Eu te amo" 
virou uma frase tão romântica quanto "me passa o açúcar". Entre 
casais, é mais fácil ouvir eu "te amo" ao encerrar uma ligação 
telefônica do que ao vivo e a cores. E fazem isso depois de terem se 
xingado por meia-hora. "Você vai chegar tarde de novo? Tenha a santa 
paciência, o que é que você tanto faz nesse escritório? Ontem foi a 
mesma coisa, que inferno! Eu é que não vou prepar o jantar para você 
às dez da noite, te vira. Tchau, também te amo." E batem o telefone 
possessos. 
Sim, sabemos que a vida real não combina com cenas hollywoodianas. 
Sabemos que há apenas meia dúzia de castelos no mundo, quase todos 
abertos à visitação de turistas. Sabemos que os príncipes, hoje, andam 
meio carecas, usam óculos e cultivam uma barriguinha de chope. Não são 
heróicos nem usam capa e espada, mas ao menos são de carne e osso, e a 
maioria tentaria nos resgatar de um prédio em chamas, caso a escada 
magirus alcançasse o nosso andar. Não é nada, não é nada, mas já é 
alguma coisa. 
Dificilmente um homem consegue corresponder à expectativa de uma 
mulher, mas vê-los tentar é comovente. Alguns mandam flores, reservam 
quarto em hotéizinhos secretos, surpreendem com presentes, passagens 
aéreas, convites inusitados. São inteligentes, charmosos, ousados, 
corajosos, batalhadores. 
Disputam nosso amor como se estivessem numa guerra, e pra quê? Tudo o 
que recebem em troca é uma mulher que não pára de olhar pela janela, 
suspirando por algo que nem ela sabe direito o que é. ......... 
Perdoem esse nosso desvio cultural, rapazes. Nenhuma mulher se sente 
amada o suficiente.


Martha Medeiros